Esse movimento deixa um rastro previsível: desemprego estrutural, precarização, ausência de horizonte social, frustração coletiva e ressentimento difuso. Massas desamparadas, sem perspectivas reais, tornam-se terreno fértil para a manipulação política. E é aqui que entra um elemento recorrente da história: a necessidade de uma figura farsesca, histriônica, quase dantesca, que canalize o ódio social para um inimigo conveniente — uma minoria, uma etnia, um grupo estrangeiro, um “outro” abstrato.
Essa figura não surge por acaso. Ela cumpre uma função sistêmica: desviar a atenção da lógica econômica que produz a crise e oferecer um bode expiatório emocional. Com isso, populações desesperadas passam a apoiar projetos autoritários acreditando que estão reagindo à sua miséria, quando na verdade estão sendo instrumentalizadas por ela.
O passo seguinte também é conhecido. A guerra — ou sua iminência — funciona como mecan
ismo de “reset”. O dinheiro volta a circular pela economia armamentista, cadeias produtivas são reativadas, novas fronteiras de acumulação se abrem, e a destruição passa a ser tratada como solução econômica. Foi assim na grande crise do início do século XX, que desembocou na Primeira Guerra Mundial. Foi assim na crise dos anos 1930, que abriu caminho para o nazismo e a Segunda Guerra. O padrão se repete.
Hoje, o mundo caminha perigosamente para um novo ponto de inflexão, com líderes que reproduzem os mesmos traços: autoritarismo, culto à força, desprezo pela vida e uso sistemático do ódio como ferramenta política. Não podemos nos iludir achando que a história evolui de forma linear ou moral. Dentro desse sistema econômico, a crise e a violência não são exceções — são mecanismos de continuidade.
A diferença é que agora estamos sem tempo. Vivemos uma crise climática profunda, com ecossistemas colapsando, bolsões de miséria espalhados pelo planeta e uma ordem geopolítica muito mais instável do que no século passado. Um conflito global hoje não garante sequer a sobrevivência da humanidade. Em um cenário de cataclismo nuclear, não haverá como comer grandes quantidades desse vil metal chamado dinheiro.
Por isso, é urgente refletir sobre onde depositamos nossas esperanças políticas. Votar não é um gesto neutro nem meramente individual: é uma escolha histórica. Insistir nas mesmas farsas, nos mesmos personagens e nos mesmos discursos é caminhar, conscientemente, para o abismo — acreditando, mais uma vez, que desta vez será diferente.


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