Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consolidaram-se como a principal potência mundial. Sob o pretexto da Guerra Fria e da luta contra o comunismo, o país desenvolveu uma série de operações clandestinas que violaram soberanias nacionais, manipularam sociedades e até infringiram suas próprias leis internas. Como observa o historiador Peter Kornbluh, “a CIA tornou-se um instrumento de política externa capaz de moldar governos e destruir movimentos sociais” (Kornbluh, The Pinochet File).
Na América Latina, os exemplos são numerosos. Em 1954, a CIA organizou a derrubada do presidente Jacobo Árbenz na Guatemala, após ele implementar reformas agrárias que afetavam os interesses da United Fruit Company (Schlesinger & Kinzer, Bitter Fruit). No Chile, em 1973, o governo de Salvador Allende foi deposto com apoio direto dos Estados Unidos, instaurando a ditadura de Augusto Pinochet (Kornbluh, 2003). No Brasil, documentos desclassificados confirmam apoio logístico e financeiro ao golpe militar de 1964 (Fico, O Grande Irmão). Já na Nicarágua, durante os anos 1980, o escândalo Irã-Contras revelou que altos funcionários do governo Reagan desviaram recursos da venda ilegal de armas ao Irã para financiar os Contras, em clara violação das leis do Congresso (Blum, Killing Hope).
Internamente, os EUA também recorreram a práticas autoritárias. O programa COINTELPRO, conduzido pelo FBI entre 1956 e 1971, visava infiltrar e destruir organizações civis como os Panteras Negras e o movimento pelos direitos civis, chegando a difamar Martin Luther King Jr. (Churchill & Vander Wall, Agents of Repression). Paralelamente, o projeto MK ULTRA, da CIA, realizou experimentos ilegais em humanos com LSD e outras técnicas de manipulação mental, sem consentimento dos envolvidos (Marks, The Search for the Manchurian Candidate). Outro exemplo é o Projeto Mockingbird, iniciado nos anos 1950, que infiltrou jornalistas e veículos de comunicação para impor narrativas favoráveis aos EUA e combater a propaganda comunista (Agee, Inside the Company).
Os escândalos de encobrimento também marcaram a história. Em 1996, o jornalista Gary Webb publicou a série Dark Alliance, denunciando a conexão entre traficantes ligados aos Contras e a epidemia de crack em Los Angeles. Embora tenha sido desacreditado pela grande imprensa, relatórios posteriores da própria CIA confirmaram que a agência se associou a traficantes e ocultou informações do Congresso (McCoy, The Politics of Heroin). O caso Irã-Contras, revelado em 1986, expôs a venda clandestina de armas ao Irã e o financiamento ilegal dos Contras, mostrando como o governo Reagan operava fora da lei (Blum, 1995).
Essas práticas não se limitaram ao passado distante. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, investigações revelaram falhas graves da CIA e do FBI em monitorar suspeitos ligados à Al-Qaeda, levantando suspeitas sobre cumplicidade ou negligência deliberada (Coll, Ghost Wars). Além disso, denúncias sobre manipulação de informações na Wikipédia por endereços ligados à CIA e ao FBI em 2007 reforçam a continuidade da estratégia de controle informacional (Virilio, Guerra e Cinema).
Em síntese, os Estados Unidos construíram sua hegemonia não apenas pela economia e poder militar, mas também por meio de operações clandestinas que minaram democracias, manipularam sociedades e violaram direitos humanos. Como afirma William Blum, “nenhum outro país interveio tantas vezes em governos estrangeiros, sempre em nome da liberdade, mas quase sempre contra ela” (Blum, Rogue State). Denunciar essas práticas é papel dos historiadores, para que crimes fiquem registrados de forma perene e evitar revisionismos de grupos que desejam reviver atrocidades. Paulo Bressane
Bibliografia
Agee, Philip. Inside the Company: CIA Diary. 1975.
Blum, William. Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions Since World War II. 1995.
Blum, William. Rogue State: A Guide to the World's Only Superpower. 2000.
Churchill, Ward & Vander Wall, Jim. Agents of Repression: The FBI’s Secret Wars Against the Black Panther Party and the American Indian Movement. 1988.
Coll, Steve. Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan, and Bin Laden. 2004.
Fico, Carlos. O Grande Irmão: da Operação Brother Sam aos Anos de Chumbo. 2008.
Kornbluh, Peter. The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability. 2003.
Marks, John. The Search for the Manchurian Candidate: The CIA and Mind Control. 1979.
McCoy, Alfred W. The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade. 2003.
Schlesinger, Stephen & Kinzer, Stephen. Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala. 1982.






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